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Um certo ombro amigo - Parte III - David

Passaram-se vários minutos desde que eu começara a usar o ombro de Ralph como apoio para o meu pranto. Não devia estar me sentindo tão confortável, já que seus músculos não eram tão macios, mas firmes e rígidos. Porém, talvez o alívio que eu sentia com seu abraço fosse mais psicológico do que físico. Talvez um conjunto dos dois.

Percebi que até então estivera tão imerso em minha própria dor, que não houvera reparado na intensidade das emoções do Ralph que estava ali comigo. Logo vi que não estava sozinho em meu sofrimento. As lágrimas discretas dele escapavam, teimosas, pelo rosto. As minhas eu já secara. Agora apenas observava as dele, em silêncio. Um silêncio que eu mesmo quebrei com minha voz preocupada.
- Ralph? O que houve, você está bem?
E com um controle incrível que tinha sobre si mesmo, ele despiu-se de qualquer energia ruim quase imediatamente.
- Sim, estou bem. E você?
- Melhor.
E não estava mentindo. Realmente o ombro amigo de Ralph tinha sido consideravelmente reconfortante. Logo que me recompus, tirei as mãos de meu rosto, onde antes estavam contendo o choro, e as deixei penderem, sem objetivo. Estava me sentindo um idiota.
- Desculpe, amigo... você deve ter os seus problemas também, e a única coisa que eu consigo fazer é me preocupar com os meus próprios.
Ele respondeu, então, indignado:
- Não David! Jamais pense assim.
- Mas sempre foi assim. Eu sempre fui o bebê chorão e você sempre ficou do meu lado, me protegendo. E o que foi que eu fiz por você?
- Isso que você está dizendo é uma loucura, Dave.
- Verdade? Então me diga algo que eu tenha feito de bom, além de compensar todas as minhas frustrações jogando-as em cima de você. É um modo meio estranho de agradecer.
Sua expressão oscilava entre a tristeza e a agonia.
- Ah, David... se você soubesse...
Seu olhar estava perdido atrás da franja, mas isto não impedia que seu desespero ficasse visível.
Minha mente deu um estalo.
- Ralph... é sério, você está bem? Por favor... se você estiver passando por algum problema, me diga. Deixe-me te ajudar com o que quer que for, pra que eu pelo menos possa uma vez na minha vida fazer a minha parte e te agradecer de alguma forma. Ver se pelo menos eu deixo de ser tão egoís...
Minha frase foi cortada pela coisa mais inesperada que poderia ter acontecido.
Em questão de segundos, Ralph saltou de seu assento, e tomou meu rosto nas mãos. Mas não foi isso que me surpreendeu. O que me deixou absolutamente perplexo, foi ter a sensação de estar sentindo a boca de Ralph moldar-se na minha.
Não consegui ter reação. Tentei fixar em minha mente que existia uma grande probabilidade daquilo ser um engano, mas naquele momento não conseguia sequer pensar direito. Minha expressão de espanto e incredulidade só serviam para mostrar o quanto eu não estava entendendo nada.
O que estava acontecendo!?
Afastei-o de mim, sem alarme, e o observei, ainda perplexo.
- O que foi isso, Ralph?
Suas palavras saíram num rompante, e cada uma delas servia como um tapa na minha cara.
- É isso que eu sou, David! Se quer saber o que me deu em troca, eu digo. Foi com você que eu aprendi o que é amar. Deus, eu devo estar ridículo falando isso... Você vai me evitar, não vai mais manter grande contato comigo, e talvez até nem fale mais de mim na frente das pessoas. Mas mesmo que eu te perca, Dave, não posso morrer sem antes dizer que amo você. Mais do que como meu melhor amigo. Como eu desejei dizer que você não precisava mais sofrer, que podia ser feliz com alguém... Comigo. Faz anos que eu luto contra esse sentimento, mas hoje eu cheguei ao meu limite.
Eu não sabia o que dizer.
Ralph tentou levantar e sair correndo, talvez receoso de minha reação, mas a carga emocional excessiva acabou por causar-lhe uma forte vertigem, e eu o vi cambalear pela sala, antes de perder as forças e tombar.
Reprimi qualquer pensamento que me impedisse de ir ajudá-lo. Saltei do sofá e sem demora tinha-o nos braços e carregava-o até o quarto de hóspedes, onde podia deitá-lo para que pudesse repousar. Deitei-o devagar. Lembrei que ainda tinha um calmante em cima da geladeira e não demorei a levar até ele. Levantei sua cabeça com suavidade e o ajudei a tomar o remédio. Seus sentidos já se recuperavam.
Eu o observava, ainda confuso. O que eu havia feito? Continuava excluindo meus pensamentos insanos e auxiliava-o. Eu lhe devia isso. Ralph... quando eu iria imaginar uma coisa dessas?
Antes de cair no sono que o calmante proporcionava, senti que Ralph, ainda meio zonzo, afagava meu rosto. A esperança em seu olhar tinha mais peso do que a minha vida. Agora eu entendia qual era aquele sentimento que não conseguira identificar anteriormente.
Aproximou meu rosto do seu mais uma vez, e por algum motivo que eu mesmo desconheço, deixei que realizasse seu desejo. Não o reprimi.
Vi seu corpo relaxar vagarosamente.
Será que seria mesmo tão ruim?

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3 comentários:

Karla Hack dos Santos disse...

O sentimento é certo para cada um de sua forma...
Lindo o seu jeito de expressar isto, este querer.
Me fez pensar em Klaine!

;D

Karla Hack dos Santos disse...

Já comentei por aqui...v ou noutro.

;D

Karla Hack dos Santos disse...

Oi anjo.. olha eu por aqui de novo...
Ansiosa para ler seus novos textos!

;D

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